O FIM DA REVOLTA - MAS NÃO DAS INJUSTIÇAS


No calor da luta, quando eclodiu a revolta, três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, foram mortos, o que trouxe consequências trágicas para os envolvidos. O motim se estendeu a outros navios, sendo seus comandantes destituídos. Além do Minas Gerais, os marujos tomaram os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio, hasteando bandeiras vermelhas e um pavilhão: “Ordem e Liberdade”.

Cerca de 2.300 homens comandaram os navios de guerra, direcionando mais de 80 canhões para o Palácio do Catete (RJ). Além da anistia, os marujos exigiam o fim dos castigos, aumento do soldo e redução da carga horária. Em 25/11/1910, o presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) lhes deu anistia, porém, três dias depois. Os marujos, após devolverem os navios aos oficiais, foram surpreendidos: haviam sido traídos. Na realidade o governo decretou-lhes a grande parte dos marinheiros expulsão da Marinha, alguns mortos e torturados. O próprio João Cândido foi preso algum tempo depois na Prisão da Ilha das Cobras, juntos com outros marinheiros.

18 líderes foram presos na solitária da Ilha das Cobras. Neste local, João Cândido e outro marujo sobreviveram. Os outros 16 morreram sufocados, devido à evaporação da cal misturada à água para lavar o local. Marques da Rocha, comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata, por motivos que se “desconhecem”, levou as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora morasse na Ilha. Sem as chaves, a guarda da madrugada, mesmo ouvindo os gritos de dor e pavor, não conseguiu abrir a cela. Quando o comandante Marques da Rocha retornou à ilha, às oito horas da manhã, já era tarde demais… O Natal dos companheiros do “Mestre- Sala dos Mares” fora de sofrimento e morte.

Em seu relato ao jornalista Edmar Morel, no livro A Revolta da Chibata, João Cândido descreveu os momentos de terror que viveu na noite de Natal. “A impressão era de que estávamos sendo cozinhados dentro de um caldeirão. Alguns, corroídos pela sede, bebiam a própria urina. Fazíamos as nossas necessidades num barril que, de tão cheio de detritos, rolou e inundou um canto da prisão. A pretexto de desinfetar o cubículo, jogaram água com bastante cal... o líquido, no fundo da masmorra, se evaporou, ficando a cal. A princípio, ficamos quietos para não provocar poeira. Pensamos resistir os seis dias de solitária com pão e água. Mas o calor, ao cair das 10 horas, era sufocante. Gritamos. As nossas súplicas foram abafadas pelo rufar dos tambores. Tentamos arrebentar a grade... Nuvens de cal se desprendiam do chão e invadiam os nossos pulmões, sufocando-nos. A escuridão, tremenda. A única luz era um candeeiro a querosene. Os gemidos foram diminuindo, até que caiu o silêncio dentro daquele inferno”.



A Ilha das Cobras foi também palco de torturas e assassinatos de marinheiros rebeldes O Correio da Manhã denunciou torturas e assassinatos de marinheiros na ilha.




O DESFECHO

O médico da Marinha deu como causa das mortes insolação, e o comandante Marques da Rocha foi absolvido em Conselho de Guerra, além de ser promovido e recebido em jantar oferecido pelo presidente da República Hermes da Fonseca (1855-1923).

No ano de 1911, o “Mestre- Sala dos Mares” foi internado como louco no Hospital dos Alienados sob o choque emocional de presenciar a morte dos companheiros de cela. Ao obter alta, retornou para a prisão da Ilha das Cobras, saindo em 1912. Estigmatizado como rebelde e perigoso à sociedade, foi expulso da Marinha. João Cândido viveu o resto da vida pobre, como estivador e vendedor de peixe na praça XV do Rio de Janeiro.

Em 1917, a sua primeira esposa faleceu, e Joâo Cândido começou a trabalhar como pescador para sustentar a família. Casou-se novamente, porém sua segunda esposa suicidou-se no ano de 1928. Dez anos após esta tragédia, novamente voltaria a ocorrer, mas desta vez com uma de suas filhas. O “Mestre-Sala dos Mares” se casou três vezes e teve 11 filhos.

João Cândido não tinha por hábito comentar sobre a Revolta da Chibata (1910) com seus filhos. De acordo com dona Zeelândia e Candinho, seu filho menor, era comum escutá-lo falar do levante na rua ou das homenagens públicas recebidas por ele. A família sabia que o maior sonho, acalentado por João Cândido, era retornar para a Marinha de Guerra. Infelizmente, este desejo nunca se realizou.

No mês de março de 1964, João Cândido recebeu o convite da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, sob a liderança de José Anselmo dos Santos – agente infiltrado dos órgãos de repressão brasileiros –, para participar do histórico encontro do Sindicato dos Metalúrgicos no Rio de Janeiro. Este reuniu cerca de duas mil pessoas e de acordo com historiadores, foi o estopim para o golpe militar de 64. Junto a Leonel Brizola (1922-2004), então deputado federal, João Cândido, naquela ocasião, presenciou discursos inflamados. Alguns discursos, acerca da melhoria na alimentação dos barcos e revisão dos regulamentos da Marinha, eram velhos na memória do marinheiro. Outras questões, de cunho político, contra o governo, causavam-lhe desconfiança. Ao encerrar o palavrório, o velho marinheiro disse a frase que entraria para a história dos movimentos sindicais e seria lembrada por vezes: “revolta de marinheiro só dá certo no mar”.

João Cândido faleceu, aos 89 anos, em 6/12/1969, vítima de câncer, no Hospital Getúlio Vargas, sendo sepultado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. O “Mestre -Sala dos Mares” nos deixou uma herança de coragem e dignidade. Incrível é o fato, que, em seu velório, ocorrido em pleno regime militar, foi vigiado por viaturas na área do cemitério.


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